"Para as mulheres que não escolheram queimar os seus sutiãs em praça pública..."

Autora: Anaí Licia Couto

 Publicado na Folha de Londrina em

SEXO E COMPORTAMENTO
Culturas dominantes, sociedade da escolha - 30/06/2009
  http://www.bonde.com.br/folha/folha.php?id_folha=2-1--8542-20090630

Buscar na Web "Anaí Licia Couto"

Quando: 05/05/2009

Dia desses assistindo ao filme - “Divã ”, na verdade não elaborei ainda minha opinião sobre o filme, entretanto, uma cena fez emergir velhas questões que esporadicamente me agitam e me implicam numa reflexão ainda inacabada. Ao chegar em casa fui checar meus e-mails e uma amiga de faculdade, visitando meu Blog, sugeriu-me deixar um espaço para as “Mulheres, que não escolheram queimar seus sutiãs em praça pública”, e essa era exatamente a questão... Isso nos rendeu muitos risos, durante os cinco anos de universidade... Saudades, Fran ! Vi-me diante de um desafio, visto que sempre me coloco em questões, um tanto polemicas, para meu desagrado, entretanto, questões que incitam uma forma diferente de pensar, uma possibilidade real de escolhas pouco convencionais, especialmente, frente à nossa cultura contemporânea, falar sobre elas suscita comentários do tipo: Em que mundo você vive? Então vamos lá! No passado as mulheres não tinha escolha, eram oprimidas, castradas, em seus direitos mais essências, como pensar, estudar, trabalhar fora de casa, opinar, e gozar, gozar a vida... Ou seja, expressar, manifestar suas expectativas, anseios e potencialidades intelectuais e “Humanas”. Nada, além do ser mãe, esposa e dona de casa, papéis estes, muito bem delineados pelas sociedades, religiões, e culturas dominantes da época. Travou-se uma grande batalha, em 1968, em meio à invasões do Vietnã, M. Luther King havia sido assassinado, e muitas mulheres organizaram-se em protesto contra o curso de uma sociedade opressora, determinado por homens da elite dominante, cujo às classes minoritárias como, mulheres e negros, eram atribuídos apenas os trabalhos secundários. Carregando símbolos de feminilidade da época, essas mulheres reivindicavam por igualdade de direitos humanos, liberdade de expressão, entre outras coisas a inclusão social das minorias. O objetivo era jogá-los em uma lata de lixo e queimá-los em praça pública, mas foram inibidas pela prefeitura de Atlantic City. Esta tentativa ficou marcada na história como fato ocorrido, como um protesto à ditadura da beleza que era impingida às mulheres daquela época, e foi neste contexto, que o movimento feminista ganhou lugar, significativa distorção e grandes conquistas para as mulheres. Hoje a ditadura da beleza é ainda mais rígida e escravizante, levando jovens e mulheres a verdadeiros delírios de uma beleza e juventude utópicas, não bastasse, a mulher correu atrás do prejuízo, atravessou fronteiras de peito aberto, na disputa pelos gabinetes executivos, que antes era de domínio exclusivo masculino. Hoje enfrenta uma batalha múltipla, é maciçamente desafiada pelas artimanhas do preconceito e descriminações, e suas vidas se transformaram numa verdadeira maratona para provarem constantemente que são capazes, e provam. Visto que, os efeitos dessas conquistas se expressam significativamente, em novos moldes de toda sociedade, inclusive da estrutura familiar. Derrubaram os homens de seus tronos e os lançaram a um lugar ainda desconhecido, as mulheres sentem-se sobrecarregadas, ainda desamparadas e não compreendidas, num lugar, que na maioria dos casos ainda, não foi totalmente extinto, o lugar das especificidades femininas. Mas esse contexto tem lá o seu avesso, hoje o preconceito e a discriminação acabam por vitimar, pelas próprias mulheres e não só por elas, outras mulheres, aquelas que por igual direito de escolha e ou circunstancias, permanecem no mesmo caminho que fora abandonado outrora, pelas primeiras. A ditadura sociocultural mudou, mas não tanto assim, mas impondo-se da mesma forma contra a liberdade da mulher que hoje enfrenta a retaliação de sua própria classe e da masculina também, hora porque agem como homens e não exercem mais seus antigos papeis, hora porque são preguiçosas e acomodadas, por optarem em preservá-los. Penso que na verdade, não mudou muita coisa, os lugares são outros, os tempos também. Toda via, a mulher continua sendo tolhida em seu direito natural e essencial, de expressar sua humanidade, pelas vias genuínas de sua especificidade, o feminino, amplo, complexo, incompreensível, magnífico. O direito de simplesmente gozar e lutar, sem que os extremos da cultura lhe impinjam suas escolhas, escolher sem pagar preços tão altos, sem culpa, sem se sentir menos.